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De Crepúsculo a 50 Tons de Cinza: A Fanfiction que se tornou um best-seller


Com a popularização da internet, fãs de filmes, jogos, séries e quadrinhos passaram a se aproximar e se conectar com os diferentes universos com os quais sentem afinidade. A expansão do mundo virtual também aumentou o acesso à produção de livros, videogames, séries e filmes e, com isso, os fãs se aproximam para trocar ideias sobre a paixão que os une. Assim, um debate sobre o final da história ou as atitudes de um personagem pode se transformar em algo totalmente novo: é a produção cultural de fãs, para fãs.





A fanfiction (abreviada como fanfic, ou apenas fic) é uma história predominantemente narrativa, baseada em uma mídia (quadrinhos, jogos, livros etc.), e que atende a um grupo específico, e proporciona emoção, carinho e nostalgia. Os fãs ultrapassam os “limites oficiais” da narrativa para dar seu toque pessoal às histórias que os cativam. A fanfiction “pega emprestado” um ou mais personagens e dá a eles uma nova história, paralela ou não à original: pode ser uma continuação de um acontecimento, uma interpretação alternativa de um fato/personagem não explorado durante a história, ou um romance entre um casal. As possibilidades são praticamente infinitas!


As produções de fãs podem servir de “treinamento” para a produção de obras inéditas. Foi o que aconteceu com E. L. James, autora de 50 Tons de Cinza, inicialmente uma fanfic da série Crepúsculo. Antes de serem Ana e Christian, os protagonistas eram literalmente Bella e Edward. Acontece que, como todo mundo que leu (e até quem não leu) 50 Tons sabe que a trama tem um conteúdo erótico muito forte, e isso era uma característica já presente na versão original, que no início se chamava Master of the Universe. Uma característica que foi alvo de muitas críticas, especialmente porque Crepúsculo sempre teve uma fã-base voltada ao público jovem, e esse desvio do comportamento habitual dos personagens (chamado “OOC – Out Of Character”) também trouxe problemas.

E. L. James percebeu que só teria duas opções: adaptar a sua narrativa para os fãs de Crepúsculo, ou encontrar um novo público para sua história – pois ela não era necessariamente ruim, só não estava de acordo com o perfil dos seus leitores. A fanfic se tornou assim o caminho para aprimorar a habilidade de escrita da autora, para depois alcançar o público definitivo: pessoas interessadas em literatura erótica, especialmente do ponto de vista feminino. Um nicho que não vinha sendo explorado há algum tempo. Ela retirou a fanfic do site onde publicava, e criou um website próprio para postar sua nova história: “fiftyshades.com”.


Quando aprendeu a adequar sua escrita com o público certo, os acessos aumentaram. E. L. James percebeu que ela havia descoberto pessoas que eram fãs do seu estilo e das suas ideias, e não da série Crepúsculo em si. Entre 2011 e 2012, lançou a trilogia em e-book, e, bom, com o sucesso no meio digital, editoras a procuraram para publicar fisicamente. No fim, a autora fez tanto sucesso que até parte dos fãs de Crepúsculo tornou-se público consumidor – justamente porque muitos não gostavam de ver Bella e Edward em situações eróticas, mas gostaram de ler sobre outros personagens nas mesmas situações.


A história por trás da criação de 50 Tons também influenciou positivamente as editoras, revelando esse nicho de mercado até então subvalorizado e, também, alertando para os talentos que podem surgir através da internet e da produção feita por fãs. A fanfic de um autor pode lhe abrir portas para o mundo editorial e, quanto mais isso ocorre, maior a visibilidade gerada para todo o público que escreve fanfics. E tudo faz parte de um ciclo: hoje em dia, 50 Tons de Cinza é que inspira muitos fãs, que passaram a escrever fanfiction daquilo que um dia já foi uma fanfiction.


As fanfics não são um fenômeno recente, e já habitavam a internet antes mesmo da popularização dos livros digitais. Elas são uma literatura espontânea, um meio de expressão e de manutenção da obra no coração daqueles que nutrem sentimentos por ela. Um universo que se traduz em um fenômeno onde o consumidor também se torna produtor, o leitor se torna autor. A interação e a troca de papéis representa a quebra de paradigmas e a nova forma de criar cultura nos tempos pós-modernos em que vivemos.


E você? Já leu ou escreveu uma fanfic? Conta aqui para gente!









NATALIA ZIMMERMANN

Autora Pendragon

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