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  • Foto do escritorEditora Pendragon

Sandman: Onde os Sonhos se Tornam Realidade_ parte 1

Gostou da série Sandman? Então dá uma olhada na matéria de hoje!




A época é a primeira metade do século XX. O lugar é uma luxuosa propriedade no interior da Inglaterra. Um homem, envelhecido e hesitante, é ali recebido. Ele traz consigo um livro. O Grimòrio de Magdalena. Aquele que o recebe, também idoso, o quer. Ambos são assombrados por tragédias pessoais, tendo perdido seus primogênitos em combate na Primeira Guerra Mundial. O anfitrião garante ao visitante que, com a posse do livro, ele poderá trazer ambos os filhos de volta. Ele obviamente tem outros objetivos além desse, mas o visitante não se importa. Aceita entregar-lhe o que é pedido, no desespero por rever o filho. Um sinistro ritual é realizado. Um portal é aberto. E alguém cai através dele, aprisionado pelo círculo mágico. Ele usa um manto negro, carrega uma algibeira de areia e uma corrente com um rubi, e tem um estranho elmo sobre sua cabeça.


Assim se inicia Sandman, a adaptação da icônica série em quadrinhos escrita por Neil Gaiman (o mesmo autor de Deuses Americanos, Belas Maldições, Coraline e Stardust: O Mistério da Estrela). Uma adaptação muito aguardada, diga-se de passagem, mas que também foi motivo de muito receio para os que conheciam a obra original. Por muito tempo, Sandman foi conhecida como uma “obra impossível de ser adaptada”. Não sem motivos, obviamente, pois a série alterna entre o terror e a dark fantasy, mesclando elementos de narrativas mitológicas clássicas com doses de simbolismo e surrealismo.


Sandman, apesar de ser uma história em quadrinhos, não se foca na ação ou em cenas espetaculares. Muitos dos seus capítulos parecem não ter ligação com a linha narrativa principal, inclusive relegando o protagonista ao papel de coadjuvante em alguns momentos, mas adquirindo enorme importância mais à frente. Seus personagens, mesmo coadjuvantes, são cheios de camadas e dilemas. E embora grande parte da trama se passe na Terra, ela não hesita em viajar para o Sonhar (o reino dos sonhos), o Inferno ou mesmo locais mais exóticos, como Faerie, a Terra das Fadas. Ou seja, com tantas complexidades, é bastante claro que uma adaptação audiovisual parecia algo distante. Mas do que, exatamente, estamos falando?


Morpheus. Kai’ckul. Oneiros. Sonho. Estes são alguns dos muitos nomes dados a uma entidade cósmica que é a personificação dos sonhos, bem como regente de seu reino. Este ser pertence a uma “família” de manifestações antropomórficas (ao menos na maior parte do tempo, uma vez que todos assumem formas não-humanas também) de elementos primordiais da criação, como Destino, Morte, Desejo, Desespero, Delírio, Destruição e Sonho. Eles são conhecidos como Perpétuos. Porém, Sonho é capturado no ritual acima descrito, e aprisionado por décadas por um grupo de ocultistas mortais. Quando escapa, já em tempos atuais (ou nos anos 80, no original), ele inicia uma jornada para reconstruir seu reino, sanar os danos do período em que esteve aprisionado e corrigir erros do passado.


A trama se estende não apenas pelos vários cenários acima descritos (e muitos outros), mas também atravessa diversas épocas. Suas muitas personagens se dividem entre outras entidades cósmicas, deuses, espíritos, magos, fadas, anjos, demônios, outros seres mitológicos, personalidades históricas (como ninguém menos que William Shakespeare), além de muitos humanos comuns, com todas as suas dúvidas, qualidades, defeitos e medos, arrastados para essa complexa teia de sonhos e pesadelos. E estes últimos assumem o protagonismo de muitos dos arcos, mesmo em uma história que parecia girar em torno de poderosas entidades milenares. Além disso, há também algumas aparições de personagens ligadas às demais linhas de quadrinhos da DC Comics (embora tais ligações diminuam conforme a história avança), seja com rápidas participações (como o Sandman dos anos 70, ou o mago John Constantine), ou com presenças mais relevantes (como Hyppolita Hall, uma Fúria da mitologia grega e também das histórias da Mulher Maravilha).


Você, que chegou até aqui, deve ter se perguntado no parágrafo anterior: “qual Sandman dos anos 70”? De fato, houve um personagem dos quadrinhos da DC Comics entre os anos 70 e 80 chamado Sandman, criado pelos lendários Jack Kirby e Joe Simon. Este Sandman tinha por principal objetivo proteger as crianças de seres do mundo dos pesadelos. Por sua vez, este personagem era uma tentativa de retrabalhar um outro Sandman dos quadrinhos, desta vez dos anos 30, um justiceiro noir que tinha como arma uma pistola de areia, e que se utilizava de uma máscara de gás (que, ainda que tenuamente, ajudou a inspirar a forma do elmo de Morpheus). Essa versão teve algum sucesso em sua época, mas acabou caindo no ostracismo com o tempo. As versões posteriores, dos anos 70 e 80 chegaram a chamar a atenção, mas não com a repercussão esperada.


Quando Neil Gaiman fez a proposta à DC de trabalhar com a personagem, mas recriando totalmente a sua origem e narrativa, ele recebeu carta branca da editora. O Sandman não era particularmente popular entre os leitores e não havia planos para a personagem naquele momento. Era exatamente o que o autor, jovem e recém-chegado aos EUA, precisava naquele momento. Era a época da chamada Invasão Britânica nos quadrinhos americanos, quando autores como Alan Moore, Grant Morrison e o próprio Gaiman, trouxeram elementos adultos e de contracultura para um mercado dominado principalmente pelas narrativas de super-heróis.

As 75 edições de Sandman foram publicadas de janeiro de 1989 a março de 1996 pelo selo Vertigo, responsável pelas publicações de temática adulta da DC. Apesar de alguma estranheza inicial por parte do público, elas acabaram se tornando um enorme sucesso de público e crítica, sendo uma das séries em quadrinhos mais premiadas da história, chegando à lista de best-sellers do The New York Times (um feito alcançado por poucas graphic novels). Como se não bastasse, ela é uma das obras mais influentes no gênero Fantasia desde então, tornando Neil Gaiman uma referência para inúmeros autores.


O sucesso de Sandman também gerou um enorme número de spin-offs, que ampliam enormemente o úniverso mágico criado por Gaiman. Embora a maioria delas não conte mais com a sua autoria, ele ainda escreveu Morte: O Preço da Vida e Morte: O Grande Momento da Vida (duas obras-primas que tem a Morte, irmã de Sandman, como protagonista), a belíssima graphic novel inspirada na cultura japonesa Caçadores de Sonhos (ilustrada pela lendária Yoshitaka Amano) e a antologia Noites Perpétuas, dentre outros trabalhos. Gaiman ainda retornaria a Sandman em 2013, para a escrita da prequela Prelúdio. Sandman, junto com seus spin-offs, venceram mais de 25 Eisner Awards e 2 Hugo Awards, além de muitos outros prêmios, sendo considerada uma das obras de quadrinhos mais relevantes de todos os tempos.


Com tamanho sucesso, Neil Gaiman acabou por se tornar um ícone cultural de sua geração, inclusive no Brasil. O próprio autor diz que o Brasil foi um dos primeiros países a descobrir Sandman, onde a série foi publicada e republicada diversas vezes (a primeira delas pela Editora Globo, ainda nos anos 90). Isso impulsionou três visitas de Gaiman ao nosso país, sendo a primeira delas em 1995 (onde o autor recebeu o prêmio HQ Mix), a segunda em 2001 (para o lançamento de O Livro dos Sonhos, quando mais de mil pessoas estiveram presentes na sessão de autógrafos na FNAC, e o autor atendeu a todos, só terminando às 02:00 da madrugada), e a terceira em 2008 (onde participou da FLIP - Feira Literária Internacional de Paraty, novamente ficando mais de cinco horas e meia autografando, inclusive sacrificando a sua presença no jantar com outros autores).


Embora ainda tenha trabalhado com quadrinhos após Sandman, Neil Gaiman buscou novos ares para a sua carreira. Migrou dos quadrinhos para a literatura, onde teve tanto sucesso quanto antes, escrevendo obras de grande repercussão, como Lugar Nenhum, Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi, O Oceano no Fim do Caminho, dentre muitos outros que entraram nas listas de best-sellers ao redor do mundo. Além disso, trabalhou junto ao também britânico Terry Pratchett na escrita de Belas Maldições, uma das suas histórias mais geniais e insólitas. Gaiman também enveredou pelos caminhos de roteirista, tendo inclusive assinado contribuições para a famosa série britânica Doctor Who, e para a animação A Lenda de Beowulf, de 2007.


Já sabiam? Esperem pela parte II que tem muito mais curiosidades sobre Sandman!






Wallace William de Sousa

Autor Pendragon

36 visualizações1 comentário

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1 comentario


Juju Couto
Juju Couto
08 sept 2022

Simplesmente maravilhoso!!! De uma Gaiman maníaca a outro!! Vou compartilhar com todos os mundos e espalhar a palavra

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