Onde você está e o que você está fazendo?

February 11, 2016

 

Eu comecei a jogar RPG com 13 anos e a pergunta que o mestre sempre me fazia, ou que eu logo comecei a fazer ao mestrar, foi “Onde você está e o que você está fazendo?”. Pode ser algo regional, mas ao menos aqui na minha cidade nós sempre começávamos nossas partidas assim. Cada jogador tem seu personagem, e o mestre (narrador) precisava saber onde eles estavam para conduzi-los ao centro da história.

 

Não sabe o que é RPG? Leia o paragrafo logo abaixo. Já sabe o que é? Pode pular o paragrafo.

Vamos do inicio porque não estou falando sobre jogos eletrônicos. A sigla significa Role Playing Game, traduzindo literalmente, Jogo de Interpretação de Personagem, e é exatamente disso que se trata. O Mestre/Narrador, conta uma história dentro de um cenário estabelecido e um sistema de regras. Os jogadores fazem seus personagens de acordo. Para simplificar, tente imaginar a história e o cenário de seu livro favorito. O mestre é o escritor, e os jogadores alguns personagens do livro, com a diferença de que são os próprios jogadores quem criam esses personagens. Eles só precisam respeitar o cenário e as regras. O Mestre controlará o restante dos personagens que forem necessários ao desenrolar da trama.  Há um rumo tênue a ser definido pelo mestre, mas ele pode mudar, pois são os jogadores quem ditam o ritmo da historia, e eles tem o péssimo hábito de serem imprevisíveis.

 

Qual o diferencial entre o RPG e um livro? Ou um bom filme? Hoje em dia existem muitas formas de se acompanhar uma narrativa. Visualmente, os filmes e os jogos de vídeo game são perfeitos. Para acompanhar de uma forma mais detalhada, que permita o uso da imaginação, temos os livros (ou áudio livros) e podcasts. É bem verdade que o vídeo game nos permite uma interação com a história, mas para nos envolvermos com ela, para realmente fazermos parte dela, temos o RPG.

 

Aqui você é o protagonista (junto com um grupo de amigos provavelmente), e toma as ações que quiser. Claro que é sempre bom pautar pelo bom senso, e lembrar-se de interpretar seu personagem, mas no geral, não há restrições do que se pode fazer. Sabe aquele filme de ação, em que você queria que o mocinho socasse a cara daquele escroto mauricinho e ele não fez isso? No RPG, você pode socar. Sabe aquele jogo de vídeo game em que você queria entrar naquele Castelo fodão, mas não podia porque o programador só o colocou ali como enfeite? No RPG você pode entrar. Sabe aquele livro empolgante, mas que você sentiu falta de um personagem engraçado? No RPG você pode ser esse personagem engraçado.

 

Isto porque, ao contrario da maioria das outras mídias o RPG está limitado apenas pela imaginação, e a imaginação meus amigos, como todos sabemos, não tem limites. Eu sempre tento divulgar o RPG, pois me ajudou bastante, desenvolvendo minha criatividade e raciocínio (acredite você coloca seu personagem em situações complicadas às vezes, e é preciso pensar rápido). Não vai acontecer de forma instantânea. Vai ser devagar, mas acredite em mim. Sua mente vai ficar mais afiada a cada partida. Foi numa mesa de RPG também, entre dados, lápis e planilhas que conheci alguns dos meus melhores amigos e jogamos até hoje, dezessete anos depois de termos começado.

 

Nem preciso dizer que mestrar/narrar, é um curso de graça, e muito divertido, para quem quer ser escritor. Você terá que criar uma trama, todos os personagens que não sejam os personagens jogadores, inclusive os antagonistas, ficando também como sua responsabilidade “interpretar” todos eles. Sim, parece algo esquizofrênico ser tantos personagens ao mesmo tempo, mas quem mestra sabe que se torna instintivo com o passar do tempo.

Você vai começar utilizando cenários prontos, mas logo vai querer criar o seu, o que tornará tudo mais interessante. Depois virão os vilões marcantes, os conselheiros sábios, os ajudantes atrapalhados e tantos outros estereótipos, todos diferentes a sua maneira, pois terão características suas.

 

Hoje muitos livros viram filmes. Antes de um livro ser um livro, no entanto, ele foi uma ideia, e se o escritor jogava RPG, provavelmente ele foi uma ideia narrada para um grupo de 3 a 4 jogadores (quem sabe mais), em torno de uma mesa (talvez redonda?), numa tarde tediosa de domingo ou nas madrugadas do final de semana.

 

Eu não estou dizendo que RPG é o melhor hobby do mundo (embora para mim seja). Funcionou para mim. Talvez não funcione para você. Uma sessão toma em média 4 horas do seu tempo. O Mestre vai se ocupar mais, porque tem que preparar a historia. É muito tempo para investir numa atividade lúdica, mas é um tempo que eu e meus amigos sempre vamos estar dispostos a investir.

 

Não importa quantos anos passem. Nós vamos nos sentar em torno de uma mesa, discutir banalidades antes da sessão e quando finalmente estivermos prontos para começar, eu, que acabei me tornando o mestre da turma, vou me virar para cada um dos jogadores e perguntar:

 

“Onde você está e o que você está fazendo?”

 

 

 

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