Breve Reflexão do Entretenimento

February 22, 2016

 

Ultimamente quantas vezes assistimos a um filme e o achamos maravilhoso? Quantas vezes assistimos a uma série excelente, que nos deixa saudade quando acaba? Quando foi a última vez que ouvimos uma música inspiradora? Essas indagações estão cada vez mais difíceis de responder, e talvez as únicas exceções midiáticas estejam nos games e nos livros.

 

Dizem que o cinema está morrendo, alguns entendidos mais ávidos expõem que já morreu há tempos, que não há mais criatividade, que os produtores e diretores de Hollywood já não se atrevem mais a serem ousados, que buscam sempre a mesma receita, a mesma fórmula que no “ano passado” fez sucesso. Qual realmente foi o último filme a ser criativo e original que você assistiu, que de fato lhe emocionou? Claro, ainda existem, mas são raros, e é difícil de lembrar. Hoje em dia é mais fácil criar obras cinematográficas baseadas em quadrinhos ou livros recentes de grande sucesso, o dinheiro é garantido de tanto fala-fala e publicidade. Mas não há nada de errado com isso na minha visão. O que há de errado é o abandono da inventividade, o medo de arrojar como no passado, com uma história que não necessite apenas de efeitos visuais. Porque já não se faz mais filmes como Coração Valente, Dança com Lobos, O Poderoso Chefão, Indiana Jones, De Volta Para o Futuro, Rocky, Guerra nas Estrelas (felizmente voltou!), Silêncio dos Inocentes, Taxi Drive, Pulp Fiction, dentre dezenas e dezenas de outros? Porque novos clássicos não surgem mais? Talvez porque o cinema agora só se importe com a bilheteria!

 

Há alguns anos a febre das adaptações de histórias em quadrinho começou. De fato, essa ideia não é recente, contudo, era inviável em detrimento as restritas capacitações técnicas, mas quem não se lembra do clássico primeiro filme do Superman, nos idos anos de 1978, com o eterno Christopher Reeve? Na época onde o cinema efervescia de inventividade e improviso, o que proporcionava ao filme uma aura mágica, inexistente hoje, basta pesquisar essa época do cinema que certamente grandes clássicos serão encontrados. Mas agora, com os efeitos especiais cada vez mais extraordinários e baratos, fica fácil deixar de lado o bom enredo e seguir o filme tão-somente com os efeitos de CGI. Nessa corrida pelo próximo filme e pela próxima montanha de dinheiro, e pela não necessidade de pensar muito, surgem rapidamente as sequências. E as sequências tanto nos cinemas quanto na TV são no mínimo inferiores. Sou colecionador e grande fã de HQs, mas é raro algum desses filmes me agradar completamente.

 

Portanto, estamos na era das adaptações de quadrinhos e livros recentes, mas penso que outro meio, um que vem verdadeiramente crescendo nos últimos vinte anos, e que hoje se coloca no ápice da indústria do entretenimento mundial seja o próximo alvo de Hollywood: as adaptações dos vídeos games. O vídeo game está à frente de qualquer outra mídia de entretenimento, imersão e comunicação no mundo, e há muito já superou a música e o cinema. Talvez seja óbvio prever que filmes com o enredo dos jogos sejam em breve vistos em cartazes nos cinemas, logicamente, agora adaptados de modo mais sério e grandioso, o que não foi o caso das péssimas adaptações já produzidas e tidas como os piores filmes já feitos.

No âmbito televisivo, um caso excepcional de seriado se destaca: a famosa e excelente “Breaking Bad”, onde as cinco temporadas foram incríveis, sem as famosas enrolações características, essa sim deveria ser uma receita a seguir, ou seja, criar séries com histórias, com constância entre início, meio e fim, com poucas temporadas, e sem a introdução de vieses implausíveis que se estendem ao extremo.

 

A música, no meu ponto de vista, é o mais grave dos casos. Não apenas no Brasil, mas no resto do mundo, não há mais inteligência, não há mais luta, não há mais letra, não há mais causa para se escrever, o que importa é o espetáculo anencéfalo, onde quem canta sequer sabe o que está cantando, e quem cria sequer se preocupa em criar. No Brasil e no mundo já não há mais representantes da música boa, seja ela de qualquer gênero, os grandes que ainda existem já existiam há muito tempo, e os novos são ídolos produzidos que logo serão esquecidos. Como se comparar Raul Seixas, Engenheiros do Hawaii, Paralamas, Titãs, Capital Inicial, Chico Buarque, Elis Regina, Tim Maia, dentre outros do gênero com os que temos hoje? Do mesmo modo no rock/pop americano e inglês? É algo complicado.

 

Por fim, há os livros. A mídia mais antiga dessas citadas, a literatura é a fonte para todos os outros meios de comunicação social, é de onde jorra a inspiração e as idéias, o conhecimento. Não há adaptação, por melhor que seja, que supere um bom livro, que supere nossa própria imaginação, nossa construção visual daquilo que aporta em nossas mentes e nos faz querer continuar virando as páginas. Sem dúvida a literatura jamais chegará a um nível preocupante de criatividade, pois mesmo as histórias mais simples guardam suas ilusões, o livro nos faz ingressar na alma dos personagens e viver com ele o que se passa ao seu redor. Obviamente, como em tudo, existem as porcarias, mas ao contrário de outras mídias, somos nós quem escolhemos o que ler, somos nós quem nos fascinamos por certo tipo de gênero, que peneiramos, somos nós quem criamos o mundo através das palavras escritas, e isso, apenas o livro nos proporciona.

Conhecimento e discussão, ampliar os horizontes, acredito que isso é o que está faltando hoje em dia.

 

Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro”. (Henry Thoreau).

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