Deus Ex Machina


Um dos pontos mais importantes que um narrador deve se preocupar ao construir uma história, é a verossimilhança da sua narrativa. Não estou falando da ausência de elementos fantásticos ou sobrenaturais. Bolas de fogo são verossimilhantes num cenário de fantasia medieval (em verdade até bem aguardadas). A verossimilhança (prometo que é a última vez que uso essa palavra ou suas variantes) tem a ver com a consistência do roteiro criado, e as respostas que serão dadas as situações dramáticas geradas durante a narrativa, ao final da história. Quando isso acontecer, você não vai querer bancar o “Deus Ex Machina”.


Essa expressão surgiu no teatro grego, quando um personagem fantasiado de Deus, era abaixado por uma corda no palco, e amarrava todas as pontas soltas da história. Ela acabou ficando conhecida como uma solução inverossímil (ops!), dada a um problema dramático. Em suma, é disso que trata a expressão, “O Deus surgido da máquina” ou o “Deus fora da máquina”. O autor deixa sua posição de observador onisciente, para interferir diretamente em sua própria narrativa, de modo a resgatar um personagem ou resolver uma situação de crise.


Quando você roteiriza uma historia, ela possui inicio, meio e fim, como também determinado número de personagens, que serão responsáveis pela resolução da trama. Uma das formas mais conhecidas de utilizar-se do “Deus Ex Machina”, e que provavelmente mais irrita o leitor ou telespectador, é a resolução da trama pelas mãos de um personagem alheio à narrativa.


Tenho certeza que todos já leram livros ou assistiram filmes onde, a polícia/exército/agente secreto super foda/mercenário brucutu/herói misterioso aparece “do nada” e salva o protagonista ou resolve as questões em aberto da trama.


É esperado que, no desenrolar de uma narrativa o autor crie um pano de fundo intrincado, envolvendo os personagens principais, colocando-os por certo em situações que criam expectativa no leitor, afinal de contas é disso que se trata uma boa história, criar expectativa. A doença da mãe do protagonista será curada? O herói derrotará o vilão? Como a detetive, sem sua arma e amarrada se salvará do serial killer, prestes a fatiá-la em pedacinhos num local abandonado?


O autor precisa dar respostas satisfatórias às expectativas que cria. Imagine você, esperando ansiosamente pela conclusão das perguntas feitas acima. Tudo parece perdido. O autor conseguiu prender sua atenção de forma indelével. Suas unhas estão ruídas. Os dentes rilhando. Seu cérebro fazendo um malabarismo mental, para tentar descobrir como essas situações irão se resolver, lembrando-se de todos os fatos e personagens descritos durante a história. Você mesmo cria suas próprias soluções e pensa consigo, “Só pode ser desta forma ou desta outra. Não tem como ser de outro jeito. Será que tem?”.


Eis que o autor se levanta da cadeira e se torna o Deus Fora da Máquina. A doença é curada por um médico famoso, nunca antes citado. A luta entre o herói e o vilão é vencida por um guerreiro lendário desconhecido. A detetive é salva pela policia, que “alguém” chamou, embora não houvesse nenhum vizinho nas redondezas.


Frustrante, não concordam?


O Deus Ex Machina pode surgir de outras formas, como um objeto ou uma situação aparentemente corriqueira. Tudo bem, chover é normal, mas chover forte justo durante aquele incêndio dramático, que é parte central do livro, parece muita coincidência. Não torne o clima o protagonista da sua história. (A menos que haja realmente um motivo para isso).


Um exemplo clássico de Deus Ex Machina é a morte da Lois Lane, no primeiro filme do Superman (o primeiro filme mesmo, aquele com o Cristopher Reeve). O roteirista criou um momento de impacto, e grande expectativa, ao matar a namorada do protagonista. Como ele foi resolvido? Superman fez o tempo retroceder, dando diversas voltas na Terra em sentido contrário. Clássico, é fato, embora nada plausível.


Pode ser interessante criar cenas como essa, mas é preciso ter uma resposta à altura. No livro Símbolo Perdido, do Dan Brown, acontece uma cena similar, de grande impacto (não se preocupem não darei spoiler). O leitor rói as unhas, soergue as sobrancelhas e após algumas páginas recebe uma solução satisfatória. No final das contas é disso que se trata. Criar expectativas, prender a atenção e oferecer soluções que recompensem o tempo do leitor.


Uma história flui melhor quando não precisamos lançar mão do “Deus Ex Machina”. É como na vida real. Nela, nosso autor nunca lança mão desse artifício. Deus, não importando em qual você acredite, sempre vai estar dentro da máquina.


Observando, torcendo e deixando toda a responsabilidade por nossa conta.

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