O Carisma do Mal

March 11, 2016

 

 

Qual é a primeira imagem que vem a sua cabeça quando ouve o nome da franquia Star Wars? Eu acredito que muitos pensem nos jedis, em sabres de luz e até mesmo nas naves cruzando o espaço, causando um estardalhaço num local onde sequer deveria haver som. Existe, no entanto, uma maioria esmagadora que vai pensar em Darth Vader. Não é para menos. Anakin Skywalker é sem dúvida um dos maiores vilões da historia do cinema. Ele transcende a franquia de tal forma, que existe uma gárgula com seu rosto em uma catedral de Washington (é sério, pesquise google).

 

Mesmo sendo vilão com o costume de estrangular as pessoas e destruir planetas, nós não o odiámos. Estou certo que muitos foram ao cinema assistir a trilogia inicial de Star War (eu inclusive), aguardando ansiosamente o momento em que ele apareceria trajado com sua indumentária clássica. Aqueles poucos segundos de Darth Vader, no final do terceiro filme, fizeram valer o ingresso.

 

Alguns vilões são mais famosos que os heróis em sua história. Você pode até dizer que é muito mais fã do protagonista do Final Fantasy VII, do que do Sephirot, mas não é o Cloud quem ganhou uma música orquestrada com seu nome.

 

Mas o que há nos vilões que os fazem ser tão amados, apesar de suas ações detestáveis? Onde reside o carisma do mal? É difícil dizer, mas é fato que a vilania na vida real é detestável, enquanto na ficção é sublime, e também necessária.

 

Uma história precisa ter um vilão, um antagonista, alguém que irá opor aos objetivos do personagem principal, ser sua antítese, sua nêmese. Necessariamente não precisa ser uma pessoa ou monstro, pode ser o ambiente hostil ou uma coletividade (sim, zumbis!), e até mesmo uma doença.

 

Quando o vilão é uma personificação física (seja pessoa ou monstro), entretanto, é possível desenvolver sua personalidade, suas características e torna-lo tão importante quanto o herói. Afinal de contas, se você prestar bastante atenção, vilões bem construídos não são simples antagonistas. Eles são o outro protagonista, aquele que se veste de preto. (ou qualquer outro figurino muito mais legal que o do herói).

 

Em filmes de terror, isso fica bem evidente. Pensem comigo. Quem é realmente o protagonista de Alien? A Ripley? Não! É oitavo passageiro! Sim, a Ripley é a heroína, a personagem principal, mas quem realmente você quer ver no filme? Quem faz o público vibrar mais quando aparece na tela? É o Alien meus amigos e todos os monstros de filme de terror.

A literatura está recheada de exemplos de vilões icônicos, que são tão protagonistas quanto seus heróis. Tente ler Drácula e não esperar avidamente pelas aparições do Lorde das Trevas. Conheça da historia do Dr. Jeckyll, e tente não torcer pelo aparecimento do Mr. Hyde. Acompanhe os tormentos de Victor Frankenstein e tente não se compadecer do vilão.

 

Alguns heróis desaparecem frente a um vilão bem construído. Diga-me agora o nome do herói do Fantasma da Ópera. Não sabe? Eu também não, mas conhecemos o vilão. Nós sabemos muito bem quem é o grande Cthulhu, mas não nos lembramos dos nomes dos detetives que investigam esses mistérios. Certo, alguém deve saber esses nomes, mas no geral, em muitas obras os vilões ficam mais conhecidos que os heróis.

 

Quando temos um vilão protagonista? Tomemos como exemplo Darth Vader. Ele é apresentado ao público, inicialmente, como um tirano estrangulador de subalternos. Vilão clássico. Subitamente, ele mata o mentor do protagonista. No filme seguinte, diz sua célebre frase. Pronto. Ele não é mais apenas um tirano estrangulador de subalternos. Darth Vader é pai e isso lhe dá características humanas.

 

Trabalhar o pano de fundo que existe, por trás da maldade de um vilão é importante. As pessoas não nascem ruins. Eles não acordam um dia e dizem: “OK, vamos dominar o mundo”. Existem motivos intrínsecos e fortes, que movem uma pessoa maligna, mesmo que seja com um objetivo tão clichê quanto dominar/destruir o mundo (afinal de contas o mundo está ai para isso mesmo). É claro que sempre teremos aqueles que só querem ver o circo pegar fogo, mas ainda sim eles tiveram motivos fortes para chegar neste ponto.

 

Uma história sempre será mais rica quando explora seu antagonista, não o colocando diante do herói apenas para levar alguns sopapos. Veja Walking Dead. Não se trata apenas de um seriado com zumbis. Isto porque os antagonistas aqui, não são os zumbis! São as próprias pessoas, tentando sobreviver, e encontrando outros sobreviventes mais implacáveis, como o Governador e Negan. Capítulos inteiros foram dedicados a contar a história do Governador.

 

Os vilões nos cativam, principalmente quando conseguimos, ainda que de forma mínima, nos identificar com eles. Em muitos casos, gostamos tanto, que queremos que eles se redimam. Em outros, que continuem tão malignos como sempre (alguém ai empolgado com o Coringa em Esquadrão Suicida?).

 

Um antagonista bem construído rouba a cena em sua história. Não se incomode em gostar mais dele do que do herói, pelo contrário.

 

Ouse torcer pelo vilão.

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