Entrevista com o autor Lucas Fernandes

March 18, 2016

 

 

 

 

Narrador/mestre de RPG e autor do livro "Apenas Mais Uma Aventura", nossa entrevista de hoje é com o autor Lucas Fernandes.

 

JM – Para quebrar o gelo e conhecermos um pouquinho de sua história, nos diga: quem é Lucas Fernandes?

LF - Uma pessoa introspectiva por natureza, quando criança. Meus passatempos costumeiros eram jogar vídeo game e ler livros. O RPG e a faculdade de Direito me ajudaram a ser mais extrovertido, então hoje acho que fico no meio do caminho. De qualquer forma sempre fui uma pessoa que se pauta pelo bom senso. Nunca bebi e nunca fumei, e é impressionante como as pessoas te julgam diferente apenas por conta disso. Minhas drogas sempre foram os livros. Foram neles que me viciei.

 

JM - Um exímio jogador de videogame?

LF - São muitos anos de prática. Eu cheguei a jogar Atari, mas meu primeiro vídeo game mesmo foi o Master System. Os jogadores de hoje não tem ideia de como os jogos eram difíceis na época. Os jogos atuais são bem lenientes. Alex Kidd gravado na memoria era muito hardcore. É só conversar com qualquer um das antigas, para descobrir ressentimentos graves a respeito de Battletoads e Equinox. Nós não tínhamos save automático. Nossa melhor arma era “continues” e “passwords”. Precisávamos acertar pulos milimétricos. Quem quiser um pouco dessa experiência, tente emular jogos antigos e zerá-los, mas sem usar o esquema de “save” e “load” instantâneo dos emuladores. Vai suar um bocado. Eu me lembro de tardes inteiras gastas com Wonderboy e MegaMan x. O controle do meu Super Nintendo tinha a marca dos meus dentes (sou uma pessoa muito calma, então extravaso nos jogos eletrônicos). No final deu tudo certo. Eu sobrevivi e os controles dos meus consoles também. Hoje aguardo o lançamento de Dark Souls III para morrer centenas de vezes e ainda achar isso divertido.

 

JM – Os gibis geralmente são a porta de entrada da leitura para muitas crianças, você acha que a internet acabou com esse costume de compra e troca de gibis?

LF - Acabar ainda não, mas diminuiu com certeza. As editoras já perceberam isso. Tanto DC, quanto a Marvel, e outras editoras menores, tem lançados muitos quadrinhos digitais ou encadernados em livrarias, procurando atingir todos os públicos. Os periódicos mensais dos heróis principais continuam, mas eu acredito que a venda deva ter caído bastante. Acho que nós não podemos deixar esse costume morrer. Se dermos gibis para nossos filhos, eles vão gostar, e é a forma mais eficiente de inicia-los na leitura. Eu comecei com a Turma da Mônica e quando dei por mim, estava gastando o dinheiro que meu pai dava para o lanche da tarde na escola com o Homem Aranha, Batman, Superman, dentre outros heróis. Eu saí da casa dos meus pais há menos de dois anos, mas deixei para trás algo em torno de três mil revistas em quadrinhos, que despertaram meu gosto pela leitura e me ensinaram bastante.

 

JM – Um viciado em biblioteca?

LF - Eu cresci entre livros. No colégio, quando comecei a estudar de manhã, passava à tarde na biblioteca escolhendo um livro, lia em um, dois dias e depois estava lá de novo, para escolher outro. Devo ter lido a coleção vagalume quase que inteira. Continuei gastando o dinheiro do lanche com papel, desta vez com livros. Li muitos da coleção da Martin Claret, que trazia os autores clássicos a um preço acessível. Quando comecei a trabalhar, gastei meu primeiro salário com os três primeiros volumes de Harry Potter e com o primeiro livro da Torre Negra de Stephen King.  Acabei construindo uma biblioteca própria, com mais de 700 obras que cresce a cada mês.

 

JM – Qual o papel da coleção vagalume em sua decisão de ser escritor?

LF - Os livros da coleção vagalume foram os primeiros que li realmente. Como em todo colégio, nos fomos obrigados a ler um livro, mas no meu caso a professora foi mais diplomática, permitindo que escolhêssemos um dessa coleção. Antes disso eu apenas havia lido quadrinhos, então foi uma experiência diferente. Eu escolhi o primeiro livro da coleção por força de lei, mas o restante foi por conta própria e eles despertaram o meu gosto pela leitura, o que me levaria a escrever no futuro, então sei que devo ser muito grato. Nada contra os livros clássicos (eu li vários de Machado de Assis e José de Alencar), mas quando se tem 11 anos é preciso ler algo mais divertido e menos complexo, uma leitura interessante que flua. A coleção vagalume me ofereceu isso, em diversas temáticas, com muita qualidade.

 

JM – Você chegou a desistir de escrever?

LF - Eu tive vontade de escrever quando comecei a mestrar RPG. Eu criava minhas próprias historias e as colocava no papel, ainda que de forma bem caótica. Ironicamente foi uma época que eu li muito pouco. Voltei a ter contato com os livros quando meu pai, ao retornar de viagem, me presentou com Robson Crusoé. Li o livro em poucos dias. Gostei muito da aventura narrada. Eu sabia que podia escrever algo tão empolgante quanto. Tentei por minhas aventuras no papel. Foi frustrante. Eu não sabia escrever. Meu pai me deu outro livro. A Maldição do Espelho, de Agatha Cristie. Certo. Eu podia fazer aquilo. Tinha enredos brilhantes na cabeça. Só precisava saber como coloca-los no papel. Foi quando desisti de escrever, antes mesmo de ter de fato começado. Na época eu só fui realista comigo mesmo. Antes de escrever eu precisava ler mais. Muito mais. Após um período de aprendizado lendo diversas obras, consegui escrever um livro de 100 paginas. Ficou horrível, sério, mas eu sabia que a culpa não era da historia. Era minha. Eu continuei lendo até finalmente poder colocar exatamente o que eu tinha na cabeça para o papel. O livro de 100 páginas passou para 500. Eu tinha conseguido escrever uma ótima historia, mas foi quando eu percebi que essa havia sido a parte mais fácil.

 

JM – Qual a importância do RPG em sua escrita?

 

LF - O RPG me ajudou a desenvolver minha criatividade e meu raciocínio. Foi um curso de graça de interpretação e narrativa, e que vou continuar fazendo por toda minha vida. Quando você escreve, você precisa ter ideias, e, toda semana, exercitar a capacidade de criar, me ajuda bastante. Na escrita em si, sempre me auxiliou na descrição dos cenários, mas principalmente nos diálogos. Em toda partida de RPG, você tem que interpretar seu personagem. Quando se é o Narrador/Mestre, você tem que interpretar vários. Eu costumo interpretar o personagem enquanto escrevo, para imaginar o que ele diria e como reagiria aquela situação. Fica mais natural, mais realístico, mesmo quando estamos diante de um livro de fantasia. Às vezes, como em uma aventura de RPG, os personagens do livro tomam vida própria, e seguem caminhos que eu não planejei exatamente. Isso torna tudo mais interessante.

 

JM – A sua persistência em continuar tentando publicar suas histórias é exemplar. Nos fale um pouco sobre isso.

LF - Como eu já disse o primeiro livro que eu escrevi tinha mais de 500 paginas. É um ótimo livro, eu asseguro, mas é o primeiro de uma série e é enorme. Depois escrevi uma coletânea de contos de terror. Escrever sobre terror, para mim é fácil. Tinha pesadelos horríveis quando criança. Bastava passa-los para o papel. Enviei minhas obras para quase todas editoras, mas nunca cheguei nem perto de publicá-las.  Eu ficava decepcionado é claro, mas sabia por fartos exemplos que meus fracassos não significavam que os livros eram ruins. A grande maioria dos autores passou pelo que eu passei. Tiveram suas obras rejeitadas, mesmo sabendo que elas eram boas o suficiente para serem publicadas. Escrevi mais dois livros, mas tive que desistir de um deles. Era um projeto ambicioso demais, com mais de 1.200 laudas, e acabei engavetando lá pela pagina 300. Participei de muitos concursos também, sem obter sucesso em nenhum. Nunca desisti. Cada premiação literária que surgia eu mandava minhas obras. Cada nova editora que analisava originais eu enviava. Eu acreditava nas minhas historias e sabia que, se elas chegassem aos leitores, seriam bem recebidas. Só precisava que mais alguém acreditasse.

 

 

JM – Vamos falar sobre seu primeiro livro, Apenas Mais Uma Aventura. De onde surgiu a inspiração para escrevê-lo?

LF - Um amigo meu, que sabia que eu estava tentando publicar falou de um concurso. Fui verificar as regras, mas descobri que o livro que eu já tinha escrito não se qualificava, pois era muito grande. A coletânea de terror menos ainda, por se tratar de temática infanto juvenil. A opção foi começar um livro do zero e foi dai que surgiu Apenas Mais Uma Aventura. Era uma ideia que eu já tinha meio formado na cabeça, que sempre quis escrever. Uma luta clássica entre o bem e o mal, mas com uma roupagem moderna.

 

JM – O que você procurou passar para seus leitores quando o escreveu?

LF - Eu só tentei narrar um conto de fadas moderno, onde as pessoas pudessem se divertir com a leitura e, ao mesmo tempo, tirar algumas lições importantes. No final de contas é para isso que serve um livro, para divertir e nos ajudar a pensar. No livro você não acompanha apenas o herói como também o vilão. São os dois lados da historia, cada um com seu protagonista. É um livro para todas as idades. A lição principal acaba sendo sobre esperança. Você sempre vai encontrá-la, se souber aonde procurar.

 

JM – Quais são seus planos para o futuro?

LF - Continuar escrevendo e narrando histórias, seja por meio de livros, seja toda sexta feira à noite mestrando para os meus amigos. Eu sempre quero estar criando histórias porque elas me fascinam. Eu já tenho material para mais de 50 livros, mas sei que tenho que ser paciente com o mercado editorial e com meu próprio tempo.

 

JM – O que você gostaria de dizer para seus novos leitores e autores iniciantes?

LF - Aos leitores que espero que gostem de Apenas Mais Uma Aventura. É uma leitura ágil e divertida, ao mesmo tempo em que apresenta um cenário de fantasia com diversos elementos e uma história dramática de um mundo prestes a ser dominado. É uma luta entre o bem e o mal, mas aqui quero que acompanhem ambas as jornadas. Sim, é Apenas Mais Uma Aventura, mas que vocês não vão conseguir esquecer.

 

 

Aos autores iniciantes, peço que nunca desistam. Tenho certeza que as melhores histórias já imaginadas, nunca foram publicadas. Também é preciso sentar na cadeira e ficar horas de frente para a tela do computador. Não há formula mágica. É preciso exercitar a escrita assim como exercitamos um musculo, então você vai ter que escrever e ler muito para se aprimorar. Não postergue.  Se você quer escrever, sente-se e escreva. Deixe a imaginação fluir. Apare todas as arestas que forem necessárias. Quando chegar o momento de publicar, acredite na sua ideia, mas certifique-se de que ela esteja apresentável. Não vai ser fácil, nada que vale a pena na vida é. Quando finalmente der certo, comemore. Tome um drink, fume um cigarro, ou, caso você seja como eu....

 

Leia um livro.

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