Como Nasce um Irmão

March 19, 2016

 

 

Ninguém havia contado para o Maicão como ele deveria fazer para comer. A noite avançava feroz no mês de julho, um frio dos diabos deixava a rua mais vazia do que o de costume, e a barriga dele roncava e doía. Por incrível que parecesse, já tinha se entupido de salgadinhos, pedaços de bolo velho, meia pizza fria jogada no lixo que só tinha uma ou duas larvas atrapalhando. Antigamente, menos que isso já era o suficiente para encher seu bucho, mas por mais que ele comesse, a fome não passava. Desde o dia que aquela vadia o pegou de jeito.

 

***

 

Havia acontecido duas noites antes. A temperatura no pirulito do Parque Halfeld marcava 10 graus. Frio pra caralho, mesmo pra uma cidade com um clima louco como Juiz de Fora. Uma da madrugada, Maicão estava deitado ao lado da banca na beira da avenida, aquecido por um cobertor velho e puído e uns goles de cachaça que mendigou com uns roqueiros mais cedo. O grau da birita já estava passando, seu fígado já estava tão acostumado que era necessário muitas doses para que ele pudesse sequer trocar as pernas. A friagem já estava começando a incomodar, mas depois de mais de dez anos de mendicância, a tendência era só melhorar, porque piorar era impossível.

 

Isso havia acabado de passar pela mente dele quando sentiu alguém o cutucando. De começo, pensou que fosse um vira-lata ou um policial que o queria tirar dali. Porra, me deixa dormir em paz, pensou ele, não to na casinha de vocês, se referindo a guarita da PM que ficava logo em frente, um troço grande em forma de disco voador que foi abandonado há tempo.

 

- Acorde, moço. – quem o cutucava finalmente falou. Era uma voz de mulher. Resolveu abrir os olhos. Devia ser puta. Um frio do caralho e ela com um shortinho jeans que só cobria a virilha. A parte de cima protegida por um casaco vermelho. Mulata, maquiagem pesada, cabelo sarará de trancinha, brincão de argola falsificado. Puta, com certeza. E daquelas que atendiam na Floriano Peixoto, vinte reais a foda.

 

- Tenho bagulho não! – respondeu rispidamente, virando para o canto. Para um marginal como ela o incomodar no meio da madrugada, só podia ser atrás de maconha, pó ou crack. Maicão se orgulhava de ser um dos únicos mendigos da cidade que nunca fumou um baseado sequer, só era viciado em pinga e vodca. Estava na rua da amargura depois que foi mandado embora da fábrica de carros na zona norte onde trabalhava, ficou sem grana para o aluguel e a mulher fugiu com um traficante carioca. Só lhe restou afogar chifre e o FGTS na marvada. Mas bagulho, nunca!

 

- Não quero nada. Só quero falar com você. Está com frio?

Educadamente ele se levantou, esfregou os olhos com os dedos encardidos e respondeu.

 

- Mina, são uma da madruga e ta marcando dez graus naquele baita relojão atrás de tu. O que tu acha?

 

- Queria que você viesse até minha casa então. Tem comida e lugar pra dormir. Fica logo ali perto da Melquita.

 

- Não tenho dinheiro pra te pagar. – respondeu logo, antes mesmo que ela falasse o preço. – Nem vinte, nem dez conto. Nem um puto sequer.

 

- Dá pra perceber que não. Mas não preciso das suas moedinhas, guarde-as.

 

Maicão resolveu analisar melhor a mulher. Olhou bem para o queixo, procurando sinal de barba cerrada. Analisou o pescoço, vendo se tinha um caroço no gogó. Olhou para o meio das pernas, e aparentemente não tinha nenhum volume escondido. A mulata era bem gostosa, aliás.

 

- Tu é traveco? Não sou chegado nisso não, valeu?

 

Ela riu. Tinha alguma coisa sinistra na risada dela.

 

- Eu nasci com uma xota, posso te garantir. E então, você vem, ou vai ficar morrendo aí mesmo?

Maicão pensou que não havia motivos para não ir. Não era um viado querendo lhe enrabar, se fosse puta não queria a grana dele. Podia muito bem ser uma simples mulher querendo praticar uma boa ação, oferecer um prato de comida e um teto naquela noite gelada. Corajosa, quase ninguém fazia isso naqueles dias, ainda mais para um mendigo fedendo a álcool. Resolveu acompanhar.

 

Chegaram ao apartamento dela, uma quitinete bem simples e mais ou menos limpa. Ela acendeu a luz, foi para a cozinha e disse para que ele ficasse à vontade. Estava sem jeito, suas roupas estavam sujas, por mais que ele procurasse lavá-las toda semana na beira do Paraibuna. E aquele sofá parecia bem limpo, mesmo que tivesse uns buracos por onde a espuma saia.

 

- Er, moça. A senhora se importa de me arrumar um copo d’água? – ela não respondeu. – Moça? – ele andou lentamente até a cozinha. Sumiu.

 

Em seguida, só sentiu um puxão nas costas que o jogou com violência no sofá. Num piscar de olhos, alguma coisa o prendeu pelo peito e lhe mordeu o pescoço. Maicão lutou, socou, esperneou, mas parecia estar preso por uma estátua viva. Fosse o que fosse, estava bebendo seu sangue pelo pescoço até que ele foi ficando cada vez mais fraco. Quando não tinha mais forças pra lutar, muito mal para respirar, ela o soltou. A mulata, o batom vermelho substituído pelo sangue lambuzado. Que merda era aquela.

 

Pouco antes de apagar, Maicão viu a doida rasgar o próprio pulso com uns dentes de cachorro que haviam surgido em sua boca, e forçou seu próprio sangue goela abaixo dele. O primeiro gosto foi nojento, pior do que a água suja do rio. Mas foi ficando bom. Cada vez melhor, ele ia bebendo mais e mais, até que ela se soltou, ofegante.

 

- Esta casa é sua agora. Só tome cuidado com a luz do sol. – foram as últimas palavras que ele ouviu antes de apagar.

 

***

 

Maicão escutou uma gritaria. Olhou a direção, lá perto da esquina das avenidas Getúlio Vargas com a Rio Branco, um grupo de umas trinta pessoas correndo. Quando se aproximaram, percebeu que era um bando de funkeiros correndo atrás de outro pobre coitado como eles para surrá-lo. O alcançaram em frente ao prédio antigo da prefeitura, e bateram até não poder mais. Não tinha ninguém na rua, nenhuma luz se acendeu nos prédios em volta e a polícia estava em greve, ao que parecia. Quando eles acabaram e foram embora, deixaram o moleque tendo espasmos no chão, coberto de sangue e hematomas.

 

E então veio a fome maior. Um cheiro delicioso de comida penetrou como uma bomba no nariz do mendigo. Ele não sabia identificar o que era, parecia lasanha, ou pizza, ou frango assado. Era tão irresistível que ele levantou e foi atrás, farejando o ar como um cachorro. Vinha do moleque espancado. Como ele podia cheirar tão bem? Bateram tanto nele que o rosto era como uma ameixa amassada, impressionante como ainda estava vivo. Maicão se aproximou mais, e alguma coisa dentro dele dizia que o sangue que sujava o chão tinha o gosto melhor que chocolate em calda. Sem saber o que estava fazendo, passou o dedo no sangue e depois na língua. Manjar dos deuses! Não podia viver sem aquilo! Antes que percebesse, seus dentes caninos dobraram de tamanho e ele mordeu o pescoço do moleque, bebendo com voracidade como se fosse uma garrafa  de vinho caro.

 

Quando percebeu a merda que tinha feito, lembrou-se da mulata e resolveu fazer o mesmo. Mordeu o pulso, o que estranhamente não doeu nada, e enfiou na boca do moleque, que parecia ter morrido já. Quando ele abriu olhos, Maicão disse, sorrindo aliviado.

 

- Cuidado com a luz do sol! – e foi embora.

 

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