Fato ou Ficção

March 25, 2016

 

 

Eu cresci num mundo de fantasia. Entre animes, tokusatsus, jogos de vídeo game e quadrinhos, posso dizer que tive uma infância agitada. Meus pais nunca questionaram meus gostos, mas tiveram alguns adultos que me dirigiram olhares enviesados, onde eu podia ler claramente seus pensamentos, que diziam: “Mas que perda de tempo”.

 

Será?

 

Qual o papel da ficção em nossa vida? A capacidade de imaginar mundos fantásticos, de se envolver realmente com eles, é uma atividade lúdica ou estaríamos diante de uma atividade educacional?

 

Eu lhes asseguro que são ambas as opções. Quando você senta diante da televisão para assistir Hora da Aventura, não está perdendo seu tempo. Está se divertindo e aprendendo. De forma inconsciente sua capacidade de imaginar está sendo aprimorada e a capacidade de imaginar foi o que nos trouxe até aqui.

 

Acha que uma criança perde tempo quando desenha um dragão cuspindo chamas ao invés de um helicóptero? Pense de novo. Há muito tempo atrás uma criança chamada Leonardo Da Vinci, a pedido de seu pai, pintou um quadro. Neste quadro ele pintou uma serpente cuspindo fogo. Este mesmo Leonardo Da Vinci, como todos sabem, foi um dos precursores da aviação. Então não fique chateado quando seu filho desenhar uma bola flutuante cheia de tentáculos ao invés de um carro. Carros já existem, bolas flutuantes cheias de tentáculos ainda não (neste caso, vamos torcer para que continue assim).

 

O fato é que a capacidade de imaginação está diretamente ligada com a capacidade de criar. Historias de ficção, principalmente as mais fantasiosas, nos levam a mundos que nos apresentam uma infinidade de tecnologias e criaturas que não existe, o que exercita nosso cérebro e estimula nossa criatividade, muito mais do que um simples jornal na televisão. Não que jornais não sejam importantes, mas acredito que hoje precisamos estar atualizados com os fatos e com a ficção. Você não deve se alienar de nenhum dos dois.

 

Em um mundo cada vez mais empreendedor, sua capacidade de criar, de imaginar, sempre estará sendo posta a prova. Funcionários sem criatividade podem ser muito bons em obedecer a ordens, mas terão dificuldade em tomar a iniciativa ou de improvisar. Isso aconteceu na China, descrito pelo próprio Neil Gaiman em uma de suas palestras para Reading Agency.

 

Basicamente a China chegou à conclusão que, seus funcionários eram muito bons em realizar as ordens que lhes eram dadas, mas incapazes de pensar ou criar por si próprios. Dispostos a reverter esse quadro, enviaram uma delegação para empresas da Apple, Microsoft e Google, e o que descobriram foi extremamente simples. Os funcionários daquelas empresas, quando crianças, leram ficção, notadamente ficção cientifica. Até então a ficção era reprovada na China, mas foi recebida de braços abertos após essa descoberta. Esse é o poder da ficção. Ela quebra barreiras, justamente por não ter nenhuma.

 

Hoje em dia escreve-se cada vez mais sobre ficção (científica, fantasia medieval, distópica, terror, etc...), mas parece que ainda temos muitos adultos com seus olhares enviesados que nos dizem: “Mas que perda de tempo”.

 

Eu acredito que escritores de ficção são insatisfeitos por natureza o que é bom. Pessoas conformadas não mudam o mundo. É necessária uma dose saudável de inconformismo. Quando você escreve sobre algo que não existe, expressa de forma velada que não está satisfeito com o que existe. E é o que nossa atualidade está gritando.

 

Estamos na era do empreendedorismo, com cada vez mais pessoas tentando criar ideias novas para problemas antigos ou simplesmente criando algo que nunca existiu. Estamos na era digital, onde é cada vez mais fácil criar algo que não existe. Advinha qual o combustível dessa galera inovadora?

 

Eu confesso que não sei quais livros o ensino fundamental tem obrigado nossas crianças e adolescentes a lerem. Acho importante a leitura dos clássicos de Machado de Assis e José de Alencar, por exemplo, mas também é preciso destacar a importância de obras de ficção fantasiosa. Todos nós tivemos aula de literatura. As minhas, ao menos, não me ensinaram nada sobre Senhor dos Anéis, Duna, Drácula ou mesmo Admirável Mundo Novo. Eu gostaria muito que tivessem ensinado.

 

A verdade é que temos um ensino fundamental muito preocupado em nos ensinar matemática, física, química, português, geografia, história e até mesmo outra língua e que não está realmente preocupado em exercitar nossa imaginação. Sim eu sei, o colégio tem a função de nos ensinar o básico, entretanto imaginar, hoje, já pode ser considerado básico.

 

Não há nada de errado em ter um pouco de fantasia em sua vida. Não é uma perda de tempo. Para aqueles que leem é um alimento saudável para o cérebro, capaz de despertar novos horizontes. Para aqueles que escrevem, é a imaginação dando vida ao nosso inconformismo.

 

Nas palavras de Terry Pratchett:

Fantasia é como álcool – em excesso faz mal a você, mas um pouco torna o mundo um lugar melhor”.

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