Torcendo a Trama

April 15, 2016

 

 

Toda história possui começo, meio e fim, não necessariamente nesta ordem. Nem toda história possui um “plot twist”, literalmente falando, uma reviravolta, muito embora a maioria dos autores anseie por isso. É sempre gratificante quando, mesmo nas últimas paginas de nosso livro, nos conseguimos surpreender o leitor.

 

É disso que se trata uma reviravolta. Prender a atenção, seguir o rumo em uma linha reta e, subitamente, torcer a trama de tal forma, que obriga o espectador a volta algumas paginas, retroceder cenas do DVD ou simplesmente começar a raciocinar consigo mesmo como não havia percebido aquilo desde o inicio?

 

Sim, desde o início, é lá onde seu “plot twist” está escondido, em pequenas dicas e detalhes, porque são os detalhes que fazem toda diferença. Assim como num show de mágica, seu início é a primeira cortina de fumaça para esconder o truque. O desenrolar da historia, será a assistente de palco de roupa colorida ou a teatralidade do ilusionista, chamando a atenção do público para o óbvio, buscando esconder o espetáculo principal.

 

Numa narrativa fortemente baseada em reviravoltas (sim, podemos ter mais de uma), aquele momento de poucos segundos é o ponto chave, o objetivo do autor, o coup de grace da trama e onde ela se sustenta. O autor investiu todo seu potencial criativo para surpreendê-lo e se não conseguir, o coelho terá pulado da cartola antes da hora, e a plateia ficará decepcionada.

 

Reviravoltas não são esperadas, então para um “plot twist” funcionar, ele deve permanecer bem escondido até o momento de ser revelado. Por isso os despiste são importantes, mas é igualmente relevante detalhes que nos demonstrem que, a dupla personalidade, o planeta desconhecido que na verdade é a Terra, os vivos que na verdade estão mortos, sempre estiveram ali. Nós apenas não conseguimos perceber.

 

Eu não vou dar exemplos de “plot twist” famosos para não dar spoilers, mas tenho certeza que, enquanto leem esse texto, todos tem um exemplo em mente e lembram com carinho (talvez com um pouco de raiva), aquele instante em que foram totalmente enganados pela historia e se permitiram ficar boquiabertos por alguns segundos.

 

A verdade é que uma trama que se torce, gera mais ansiedade e expectativa, mesmo quando não percebemos que haverá uma reviravolta. Não é por acaso que narrativas que focam suspense ou terror, normalmente tem mais reviravoltas que historias de drama ou comédia (mas obviamente isso não é uma regra geral).

 

Contos de terror costumam sempre ter um “plot twist” ao final, normalmente quando o sobrenatural pula na nossa cara, gritando sua existência, ou simplesmente quando os segredos perniciosos de uma mente homicida são revelados. Eu particularmente gosto de contos de terror, tanto de ler quanto de escrevê-los. São enredos curtos, com imenso potencial.

 

É claro que não há nada de errado com uma história sem reviravoltas. Nós temos ótimas narrativas sem esse recurso, que na verdade deve ser utilizado com muito cuidado. Torça muito sua trama e seu leitor ficará tonto, tentando acompanhar as mudanças de foco. É importante lembrar que uma reviravolta pode ser tão surpreendente quanto decepcionante. (em ambos os casos ela costuma gerar fúria em diferentes graus de intensidade).

 

Não importa se você conseguiu esconder bem as cartas na manga, chegará o momento de mostrar o truque, e talvez seus espectadores não gostem de saber que tudo não passou de um sonho ou que estamos diante de mais um caso de esquizofrenia. Vejamos os filmes de M. Night Shyamalan (Não se preocupem, não irei dar spoilers).

 

Este diretor é conhecido por “plot twist”. Quando você assiste a um filme de Shyamalan fica tenso igual a uma corda de violino, esperando pelo momento em que será surpreendido. A reviravolta de O Sexto Sentido agradou de uma forma geral. Não se pode dizer o mesmo de A Vila, pois sua mudança radical de foco gerou discussões e decepcionou muitas pessoas. Em ambos os casos o “plot twist” ficou bem guardado até dar as caras, mas obteve recepções diferentes do público.

 

É impossível agradar gregos e troianos, mas é importante agradar ao menos a maioria da Grécia, então é necessário estar atento ao aplicar uma reviravolta, pois, em regra, ela implica em quebrar as expectativas do leitor. Em suma, você tem que esperar que seu público aprecie ter sido enganado.

 

Alguns “plot twist” torcem a trama menos do que outros e são esteios mais seguros, para sustentar uma história. Reviravoltas radicais são apostas arriscadas, que podem sempre despertar emoções conflitantes. (Você agora já está trincando os dentes ao lembrar-se de uma, que particularmente não lhe agradou). No final das contas a diferença entra o veneno e o antídoto é a dosagem, mas tudo bem se você estiver portando um veneno. Basta saber aplicá-lo.

 

Mesmo sendo um recurso por vezes polêmico, o “plot twist” pode tornar uma narrativa memorável. Por isso, não tenha medo das reviravoltas. Surpreenda seu público. Torça sua trama com sabedoria.

 

E ouça o barulho dos dentes rilhando.

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