O Tropeço

April 28, 2016

 

 

O céu estava azul, poucas nuvens, ensolarado. A grama era verde e ao longe, nos vales, era possível ver as plantações onde alguns trabalhavam algumas poucas horas por dia, quando o sol não castigava suas fracas peles tão delicadas quanto o pelo de um filhote de gato.

 

Caminhava descalço pela trilha de terra mole e fértil. Cumprimentava todos ao redor, mesmo sem conhecer ninguém. Não importava se era conhecido ou não. Levava uma cesta de maçãs do amor no braço direito, e no esquerdo, uma pequena gaiola com uma ave branca.

 

Andou muito além dos campos; as menininhas discutiam fervorosamente, pareciam maritacas. Os menininhos berravam como papagaios, repetindo o que os mais velhos diziam. Mas apenas o que diziam de ruim.

 

Alguns jovens estudavam em busca do conhecimento, outros, como filhotes de ratos no deserto, se aventuravam no mundo para desbravá-lo. Quase sempre quebravam a cara.

 

A única salvação na vida era a sorte. Ou a fé. Era só pagar ao padre ou ao pastor um valor de 500 reais na missa semanal e você teria uma vida abençoada. Onde será que Deus guardava todo esse dinheiro? Investia em anjos da guarda?

 

Todos viviam sobre excelente proteção. Os Poderosos tinham canhões e bombas e armas. Bastava alguém ameaçar a perfeição e ir contra o que assistia em seus aparelhinos tecnológicos… pronto. Caía estirado no chão e era comido por bactérias e fungos, isso quando os carniceiros não faziam antes sua refeição.

 

Era um mundo maravilhoso!

 

Joões, Marias , Matildas, Ronaldos, Robertas, Anas, Pedros… Todos amavam seu mundo como abelhas amam sua rainha. Aquela que as mantêm na condição de operarias e não faz mais nada na vida além gerar filhos para outras operarias sustentarem.

 

Mas foi sempre assim, não foi? Humanos se espelham na natureza. Seus comportamentos são apenas reflexos do ambiente.

 

Em certo ponto do trecho tropeçou e caiu, as maçãs do amor se quebraram… a gaiola abriu e a pequena ave branca fugiu. Era uma pomba. Uma pomba branca.

 

Andar com essas cestas era um crime. Só ouviram o som alto do tropeço causado pelo tiro dos Poderosos.

 

Adeus amor. Adeus paz. Adeus esperança.

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